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"Em 5 anos queremos duplicar o número de jogadores nacionais"
19-01-2010

Em Vale do Lobo, O jornal do Golfe foi encontrar Diogo Gaspar Ferreira. O actual presidente de um dos grupos mais reconhecidos do Algarve é, simultaneamente, presidente do CNIG. Para além de nos falar sobre Vale do Lobo, naturalmente, a conversa desviou-se para algumas preocupações sobre o estado do golfe em Portugal. 


Vale do Lobo foi o primeiro empreendimento turístico do Algarve, o que representa na actualidade o peso da história?
- Vale do Lobo tem uma responsabilidade histórica perante esta indústria. Apesar de Vale de Lobo não ter a dimensão, em termos de golfe, de outros resorts que têm 4 ou 5 campos, em termos de branding e conhecimento é uma referência nacional e internacional. A maior parte dos jogadores no Algarve são estrangeiros e, esta é das marcas que mais representa e, que mais competência tem, tanto para o bom como para o mau. Vale do Lobo tem um papel importante pela sua actividade e posicionamento no sistema de golfe no Algarve.

Assumiu a presidência do concelho de administração sensivelmente em 2006, qual a estratégia que começou a ser seguida?
- Tentámos abrir ligeiramente Vale do Lobo e mudámos completamente de estratégia. Primeiro juntámos os dois campos que existiam e que tinham clubes distintos, o Royal e o Ocean, hoje em dia quem é membro do clube de golfe de Vale do Lobo é membro dos dois campos. Com esta medida houve uma melhoria na qualidade dos dois campos, facilitou-se a gestão e, também, uma aproximação muito mais comercial aos operadores turísticos, que representam a grande maioria dos jogadores de golfe que vêm ao Algarve. Vamos manter sempre uma abordagem de qualidade e um pricing de um nível alto, este é o nosso posicionamento.

Quais os maiores investimentos feitos e em que áreas?
- O rebranding que foi feito de Vale do Lobo, em 2008, contemplou o golfe e tentámos modernizar esta área. Houve uma série de melhorias nos campos. Um campo antigo tem algumas vantagens mas também tem alguns inconvenientes. Temo-nos aproximado mais do mercado fora de Vale do Lobo, que era uma entidade muito fechada, fazemos mais torneios do que fazíamos antigamente, temos uma relação mais próxima com o mercado português, de uma forma ou de outra mantém-nos numa posição de alguma importância dentro do sector.

Quais os factores que motivaram este rebranding? A internacionalização está em vista?
- Nesta altura pensámos principalmente em consolidar a marca de Vale do Lobo. Como qualquer resort temos um projecto definido, actualmente ainda podemos contar com a parte imobiliária que está a ser vendida mas, um dia irá acabar. Quando a imobiliária acabar é muito complicado que todo este espaço gere receitas suficientes. É importante que os resorts possam crescer dentro dos seus espaços, adquirindo projectos à volta, quando esta situação não é possível há que encontrar outras soluções. Penso que no contexto internacional, Portugal é um dos países que mais sabe sobre resorts e, Vale do Lobo como é um dos mais antigos pode ser um excelente exemplo. Fizemos uma série de estudos que estamos a analisar com mais cuidado actualmente. Penso que a expansão é uma tendência natural. Temos tido alguns contactos para estabelecer possíveis parcerias no estrangeiro e penso que é bastante interessantes transmitirmos o nosso Know-How, conhecemos o tipo de cliente que é sensivelmente o mesmo que recebemos aqui. Infelizmente os portugueses não têm grande expressão. Portanto fazer aqui ou fazer em outro sítio o princípio de funcionamento é o mesmo. Este ano não teremos ainda novidades, penso que continuará a ser um ano duro para o turismo no Algarve. Primeiro temos que consolidar e, só depois partir para novos projectos.

O que leva Vale do Lobo a ser reconhecido como um dos mais importantes empreendimentos de luxo na Europa?
- O golfe é importante para Vale do Lobo mas, o nosso principal negócio é a imobiliária-turística, esta é a nossa maior fonte de rendimento. Este negócio tem duas ou três vertentes que nos conduzem para a área de golfe. As pessoas que aqui vêm jogar golfe vêem as nossas casas, o paisagismo, a água, as nossas praias e, obviamente que se sentem atraídos. O nosso negócio é o cliente com qualidade, não fazemos promoções nem reduções dos preços do golfe, a nossa estratégia é esta, não é por mais ou menos dez euros que deixamos de ter o público que nos interessa. Continuamos a ser um pouco exclusivos e, é esta a estratégia que nos interessa.

A crescente oferta de resorts de luxo no Algarve não o assusta?
- Nos últimos anos devido à demora de aprovação dos projectos não têm surgido assim tantos empreendimentos no Algarve. Se formos reparar, na nossa zona envolvente, surgiu o MonteRei, o Oceânico Amendoeira, mas mesmo assim estão a 25 km de Vale do Lobo. Na nossa envolvência física não há mais nenhum resort novo de luxo que concorra connosco. Nesta zona, conhecida por Golden Triangle somos de longe o que temos maior oferta dentro dos resorts, todos os outros estão em outras zonas do Algarve, como Portimão, Lagos e Tavira e, não são concorrentes directos. Penso que o aparecimento de resorts no Algarve não tem que ser uma ameaça ou obstáculo, considero que seja uma vantagem porque nos posiciona no patamar de qualidade que temos.

Em ano de dita crise… qual o balanço que faz?
- Estamos a atravessar este ano com as dificuldades que todos os outros estão. Houve uma diminuição do número de clientes estrangeiros, especialmente no golfe, houve uma redução de 12% no número de voltas. A diminuição de clientes e o aparecimento de novos campos contribuíram para estes resultados. Penso que seja sensivelmente o mesmo que todos os outros campos sentiram.  O Algarve já foi considerado o melhor destino de golfe da Europa e fomos escolhidos por algum motivo. Temos condições excepcionais. Existem novos mercados emergentes como o exemplo de Marrocos ou a Tunísia, que são efectivamente mais baratos, mas nós não podemos ir atrás do que os operadores turísticos querem fazer. Quando se baixam os preços é natural que a qualidade também reduza e, não queremos de forma alguma que nos acusem de não termos actualmente a mesma qualidade com que sempre brindámos os nossos clientes. Não se podem fazer resorts 5 estrelas e depois baixar os preços para ir buscar os clientes que vão para 3 estrelas, ou que escolhem outro destino. Deve haver alguma coerência. É lógico que se devem fazer pequenos ajustes à realidade mas, não podemos fazer mudanças drásticas, como se estão cada vez mais a assistir mesmo no Algarve. Obviamente que todos podem seguir a política de gestão que entenderem, mas mais tarde, quando tentarem voltar a afirmar-se como um local de luxo já não o são. Nos últimos dois anos tem havido pouca visão a médio e longo prazo. As pessoas sentem as dificuldades das crises económicas e baixam os preços, mais tarde vão sentir as consequências. Um membro de há muitos anos, que pagou um membership alto, não pode de forma alguma estar no mesmo patamar de um novo membro que, por exemplo paga um membership de 30 ou 40 euros. Depois surgem os problemas nos espaços públicos, em que os clientes não se coadunam uns com os outros. Existem uma série de condicionantes que não podem ser esquecidas.

Aposta para 2010?
- Consolidar! É necessário conseguir ultrapassar este período sem perder a qualidade, mantendo-nos no patamar que nos interessa para os nossos clientes. Não podemos descurar deste pormenor. Durante vários anos já passámos por várias fases e conseguimos sempre manter um nível qualitativo alto e, indiscutivelmente é o que pretendemos manter. Se alterássemos este padrão mais tarde onde é que nos posicionávamos? O actual cliente está habituado a um alto nível em Vale do Lobo e não o podemos defraudar, não podemos fazer baixas de preços, mesmo em períodos mais complicados, que depois atrairiam outro tipo de clientes que não se encaixam no nosso perfil.

Enquanto presidente do CNIG…

O que falta fazer para que para os portugueses comecem a jogar?
- Essa é uma excelente pergunta… todos os interessados na indústria de golfe, os proprietários dos campos, os directores dos campos, a Federação e, os vários organismos envolvidos têm que reunir esforços no mesmo sentido. O aumento do número de jogadores de golfe que tivemos é completamente marginal face ao potencial número que poderíamos ter. Temos exemplos de países como a Holanda, onde se joga oito meses por ano e que tem um crescimento anual do número de praticantes que é o nosso número total de golfistas. Sendo assim, algo de errado estamos a fazer. Quem tem que pensar seriamente neste assunto é a indústria de golfe, na qual os proprietários dos campos têm um papel fundamental. Os mercados têm que funcionar de uma forma mais eficaz e tentar tirar algum partido no meio desta crise internacional. No entanto, os números são verdadeiramente desoladores. O número de campos de golfe em Portugal ronda os 80 e, contamos aproximadamente 16 mil jogadores federados, ora se fizermos contas dá uma média de 200 jogadores por campo. À partida sabemos que nenhum campo de golfe consegue sobreviver com 200 membros. O que é que aconteceu em Portugal? Com excepção dos campos do norte do país, que não têm um cariz tão comercial, a grande maioria dos campos foram construídos à custa de projectos imobiliários. Como o negócio do golfe foi pensado a nível internacional, não é suportado pelos membros e isso transformou-se num problema. Os campos no Algarve viveram bem com isto e nunca se preocuparam com o público português e, os campos de Lisboa e arredores não conseguiram resolver o não aumento do número de jogadores. Tem havido uma falta de interligação, de estratégia nacional de captação de jogadores. Isto vai ter que ser alterado, várias pessoas vão ter que pensar neste assunto, encará-lo de uma forma séria e tentar chegar a conclusões conjuntas. Esta é uma tarefa árdua mas que terá que chegar a alguma conclusão, este problema tem que ser resolvido.


Considera que os preços praticados são impeditivos à massificação da modalidade?
- Essa é a resposta fácil! No entanto não sei se é a resposta mais correcta… Com o aparecimento dos clubes sem campo houve uma baixa drástica dos preços praticados. O golfe é um desporto difícil para se entrar. Não é fácil começar a jogar, o equipamento é caro, a própria etiqueta do golfe não facilita, depois há a dificuldade em ter handicap, a dificuldade em começar a ir para o campo, o custo das lições, e muitos outros factores que desmotivam logo de início. Todas estas condicionantes não têm ajudado à expansão da modalidade. O facto é que não temos sido profissionais na tentativa de dar a volta a estas questões. Definitivamente entre todos os interessados na modalidade tem que se concertar uma estratégia, este passo nunca foi dado, até aqui tem sido cada um por si. Existem praticamente três grupos de campos de golfe no Algarve, que se apoiam no público estrangeiro, os campos do norte que não são comerciais, e depois existem os campos que se lançaram através de projectos imobiliários. Todos estes nunca traçaram uma estratégia comum para atrair a juventude, o golfe nunca conseguiu chegar muito à juventude, deve ser dos desportos com menos número de adeptos. Existe uma total distanciamento entre a juventude e novos aderentes à modalidade, efectivamente o golfe não pode viver de reformados. Esta estratégia tem que ser pensada a nível nacional e não por regiões. Temos casos de campos que já tiveram que fechar e, casos de campos que estão a atravessar grandes dificuldades, o que não é nada bom. Enquanto presidente do CNIG penso que temos que tentar juntar as várias entidades e definir duas ou três áreas onde é fundamental pensar-se no golfe a nível nacional.

Quais são essas áreas?
- A primeira etapa, a facilitação de reservas, está em desenvolvimento com a parceria do Turismo de Portugal. Este projecto baseia-se em criar, pela primeira vez no nosso país, uma central nacional de reservas on-line, o que não existe em nenhum outro país, se o conseguirmos fazer é uma grande vitória. Este projecto está em marcha e esperamos que este ano possa avançar. Seria óptimo lançá-lo na prática em 2011, coordenado pelo CNIG e com todo o envolvimento do Turismo de Portugal. Um outro projecto, que foi lançado em 2009, com a colaboração com a Deloitte, resume-se a uma recolha de dados estatísticos sobre o golfe em Portugal. É de extrema importância termos conhecimento exacto de quantos jogadores estão em cada campo, quantos empregados existem, quais são as principais preocupações dos golfistas, uma estatística que diferencie as várias zonas geográficas, que nos mostre os preços dos fees, dos memberships, dos buggies, o número de homens que jogam, o número de senhoras e, o número de jovens. O CNIG tem actualmente um apanhado estatístico notável da realidade do golfe, que contempla dados de 52 dos 76 campos existentes, o que, pessoalmente, considero absolutamente notável. O terceiro aspecto é que o CNIG pode funcionar como um lobby forte dentro de algumas preocupações que surjam. No passado houve um problema com uma questão relacionada com o IVA e, o CNIG teve um papel forte. Actualmente existe uma preocupação continuada com a água, com o novo sistema de demarcações hidrográficas, o golfe terá um valor acrescido a pagar que hoje em dia não paga, o CNIG pode ter um papel importante nesta questão. Por fim, há que criar uma estratégia para aumentar o número de jogadores em Portugal. Esta é efectivamente uma das principais preocupações do CNIG, pensar no que se pode fazer para conseguir passar do número de golfistas actuais para patamares mais razoáveis. Temos os campos, temos o tempo! Se os estrangeiros querem vir jogar a Portugal, porque é que nós não conseguimos por portugueses a jogar? Em cinco anos queremos duplicar o número de jogadores nacionais. Os culpados por esta situação somos nós, os principais culpados são os campos de golfe. A Federação pode ajudar nesta situação mas, efectivamente quem define as regras são os proprietários. A Federação deve promover a modalidade, as camadas de competição, organizar as provas, gerir handicaps. Não se pode por uma Federação a promover um desporto que é comercial.

 

O cartão Inter-campos está a ser um sucesso?
- Esta é uma das acções promovidas pelo CNIG já há muitos anos e, que sempre funcionou muito bem. É mais uma das acções que podemos fazer que se resume a juntar membros de diferentes campos de golfe para ir jogar noutros. Esta é uma acção que apesar de ser interessante é pequena. Não é isto que vai resolver o problema do golfe em Portugal. Neste momento temos uma realidade que é entre os jogadores federados, cerca de 20 a 25% são jogadores de clubes sem campo e, há uma guerra que foi criada basicamente por uma razão: a falta de unidade entre os campos de golfe. Os clubes sem campo só surgem quando os campos não têm uma estratégia comum. Não se pode acusar os clubes sem campo, estes só existem por uma razão só, os golfistas podem jogar em variados campos e pagar menos. No entanto, esta situação só é possível se os campos aceitarem que lá vão jogar. Mais uma vez repito, tem que ser a própria indústria a criar uma estratégia que faça sentido. A realidade dos clubes sem campo não existe em muitos países, porque simplesmente não existe razão para existirem. O princípio do cartão Inter-campos é esse. A estratégia global entre os campos tem que ser organizada, a forma da atracção dos jogadores tem que ser redefinida, de forma a evitar estas “guerras” que não põe ninguém contente.

Como está a relação entre o CNIG e a Federação Portuguesa de Golfe?
- Está muito boa! Desde que a actual direcção tomou posse temos tido uma relação de grande proximidade com todos os intervenientes: a Secretaria de Estado, o Turismo de Portugal, os campos de golfe que estamos a conseguir aproximar-nos, a Federação. Isto acontece simplesmente porque estamos a fornecer serviço. A culpa não era dos campos, era o CNIG que não estava a conseguir aproximar-se e justificar o porquê dos campos pagarem as suas quotas. Actualmente estamos a tentar dar retorno ao investimento que os campos fazem, fornecendo serviço. Como exemplo posso referir as estatísticas, as reservas on-line, uma conferência que fizemos sobre golfe e que foi altamente participada, na qual estiveram os principais intervenientes nesta matéria e, conseguimos reunir mais de 20 campos de golfe numa assembleia, o que foi único.

 

Na sua opinião como está o golfe nacional?
- Perante este cenário que temos estado a falar, existem várias realidades. Os campos pequenos e fechados para os seus membros vão vivendo e funcionam bem, especialmente os campos do norte e um ou dois exemplos em Lisboa. Depois existem os campos mistos que têm membros e que têm projectos imobiliários e, as duas áreas estão relacionadas, se a imobiliária falha há uma grande dificuldade em aguentar o campo. Uma terceira realidade, que é a do Algarve e de mais dois ou três campos, que no meio desta situação e, no contexto internacional diminuíram drasticamente o número de jogadores e que passaram de negócios muito rentáveis para menos rentáveis e, alguns deles de negócios rentáveis para negócios que quase não produzem dinheiro. Há uma preocupação do CNIG em dar algum dinamismo a isto e continuar com políticas de promoção do golfe supostamente atractivas. Há alguns projectos bem interessantes como o caso do Masters, que deu uma visibilidade fantástica ao Algarve, a criação de novas rotas aéreas também é uma excelente ajuda. Não conseguimos remar contra a maré e, efectivamente há uma crise económica mundial que se sente no turismo. Temos que acreditar que a situação vai mudar, criar estratégias que possamos mostrar todo o nosso potencial. Portugal é um excelente destino de golfe e isso é o mais importante. Somos um povo simpático, podemos tirar o máximo partido de todas estas particularidades para explorar ao máximo o golfe. Estamos muito melhor preparados do que qualquer outro país na Europa do sul. Temos algumas ameaças, só temos que saber lidar com elas. Vão surgir projectos nos próximos anos, na bacia do mediterrâneo, que com certeza terão preço mais baixos, só temos que decidir onde nos queremos posicionar, se como um destino de qualidade ou um destino de jogador barato. A nossa estratégia nacional está relacionada com o turismo de qualidade. Quando tivemos sucesso no golfe foi quando nos posicionamos como um destino caro e de muita qualidade, se os campos querem outra situação têm que pensar nas consequências futuras.

 

Entrevista: Andreia Magrinho


 
 
 
 
 
 
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